Setores CAPEX-intensivos com histórico de contencioso tributário construíram, ao longo de anos, algo valioso: capacidade de litigar. Conhecem os argumentos que funcionam, as instâncias que respondem, os prazos que importam e a jurisprudência que sustenta a defesa.
O IBS e CBS não vão eliminar o contencioso tributário nesses setores. Vão mudar onde ele acontece, com quem, sob qual norma e com qual jurisprudência disponível.
Essa mudança de endereço do risco é o que a maioria dos CFOs ainda não modelou. E é exatamente o tipo de mudança que parece irrelevante até o primeiro litígio com o Comitê Gestor do IBS, quando o playbook que funcionou por 15 anos com a SEFAZ estadual produz resultado diferente do esperado.
O que muda no contencioso quando o IBS substitui o ICMS
O ICMS tem 35 anos de jurisprudência consolidada. O Superior Tribunal de Justiça, o Supremo Tribunal Federal e os Tribunais de Impostos e Taxas estaduais processaram décadas de litígio sobre base de cálculo, alíquota, benefício fiscal e creditamento. Empresa com time jurídico-tributário experiente em contencioso de ICMS sabe onde os argumentos funcionam, quais teses têm jurisprudência favorável e como o processo tramita.
O IBS vai ser administrado pelo Comitê Gestor do IBS, um novo ente administrativo criado pela LC 214/2025 para gerir o tributo de forma nacional, substituindo as 27 administrações tributárias estaduais por uma instância única. Isso muda três dimensões do contencioso que setores acostumados a litigar com SEFAZ estadual ainda não incorporaram ao planejamento.
A primeira é a instância de contestação. Contencioso de ICMS passa pelas instâncias estaduais, com recurso para TIT, TRF e eventualmente STJ e STF. Contencioso de IBS vai passar pelo Comitê Gestor do IBS, com processo administrativo em construção e recurso para instâncias federais que ainda estão sendo definidas. O rito processual é diferente. Os prazos são diferentes. Os argumentos que funcionam num processo administrativo perante o Comitê Gestor podem ser diferentes dos que funcionam num auto de infração de SEFAZ estadual.
A segunda é a jurisprudência disponível. Em 2026, quando as primeiras contestações de IBS começarem a tramitar, a jurisprudência sobre o tributo vai ser essencialmente inexistente. Empresa com histórico de contencioso sabe usar jurisprudência favorável como argumento central de defesa. No IBS, esse argumento vai estar indisponível nos primeiros anos. Quem não preparou argumentos alternativos ancorados em interpretação da LC 214/2025 e das regulamentações complementares vai chegar às primeiras contestações sem a principal alavanca que usa no ICMS.
A terceira é a estratégia de benefícios fiscais. Setores com histórico de contencioso em CAPEX-intensivo frequentemente litigam sobre aproveitamento de benefícios fiscais estaduais de ICMS, que são numerosos, heterogêneos e historicamente objeto de disputa com Fazendas estaduais. O IBS vai progressivamente substituir esses benefícios estaduais por um regime nacional mais uniforme. A estratégia de aproveitamento e defesa de benefícios que o time jurídico-tributário desenvolveu para o regime estadual precisa ser recalibrada para um regime nacional com menos heterogeneidade e instância de contestação diferente.
O gap de modelo que o contencioso histórico não resolve
Empresa com histórico de contencioso tributário tem, tipicamente, dois instrumentos de gestão bem desenvolvidos: provisionamento de passivo tributário contingente e estratégia de defesa ativa. Ambos foram calibrados para o regime atual.
O provisionamento de passivo contingente de ICMS considera volume histórico de autuações, probabilidade de desfecho favorável com base em jurisprudência consolidada, e timing de resolução baseado em experiência com cada administração estadual. Esses três parâmetros vão mudar com o IBS.
Volume histórico de autuações de IBS vai ser zero nos primeiros anos, o que significa que a probabilidade de desfecho favorável não tem base estatística para ser estimada. A administração estadual vai ser substituída pelo Comitê Gestor, cujo timing de processo ainda não é conhecido. O time de risco tributário do CFO vai precisar construir um modelo de provisionamento de IBS sem os dados históricos que usam para o ICMS.
A estratégia de defesa ativa também precisa de recalibração. Empresa que usa teses tributárias agressivas de aproveitamento de crédito de ICMS, com base em decisões favoráveis do STJ e do TIT estadual, vai precisar avaliar se essas mesmas teses se sustentam no IBS, que tem base normativa diferente e não tem jurisprudência que confirme a aplicação das mesmas interpretações.
Recalibrar sem ter feito a análise prévia significa descobrir o gap no primeiro litígio, com o Comitê Gestor como contraparte, sem jurisprudência de suporte e sem histórico de comportamento da nova instância.
O que o SAP precisa estar preparado para gerar quando o contencioso começar
Independente da estratégia jurídica, o contencioso de IBS vai exigir um tipo de evidência que o contencioso de ICMS raramente exigiu com esse nível de granularidade.
O Comitê Gestor do IBS vai ter acesso a dados de NF-e, SPED e split payment de forma centralizada e em tempo real. A contestação de um cálculo assistido de IBS vai exigir que a empresa demonstre, no nível de transação, que o dado que o Comitê Gestor está usando para calcular o tributo está incorreto ou que existe uma regra específica que justifica o tratamento diferente.
Isso significa que a evidência de defesa num litígio de IBS vai precisar ser gerada no nível de rastreabilidade transacional do SAP. Tax Code aplicado por nota, CFOP por categoria de operação, fundamento legal de cada regra configurada, histórico de modificação de parametrização com data e aprovador.
Empresa que chegou ao IBS com SAP bem configurado, com rastreabilidade de regra fiscal e com documentação de decisão vai ter capacidade de gerar essa evidência. Empresa que chegou com configuração legada, sem documentação e sem rastreabilidade vai construir a defesa a partir de memória e reconstrução, o que é estruturalmente mais frágil em qualquer instância de contestação.
O que o CFO de setor com histórico de contencioso deveria ter antes de 2026
Três análises precisam estar concluídas antes de o período de teste do IBS e CBS produzir as primeiras apurações com potencial de contestação.
A primeira é o mapeamento de teses tributárias vigentes sob risco de recalibração. Quais estratégias de aproveitamento de crédito e de benefício fiscal do ICMS que a empresa usa hoje precisam ser avaliadas para o IBS? Quais têm fundamento na LC 214/2025 e quais dependem de jurisprudência do regime antigo que pode não se transferir automaticamente?
A segunda é a avaliação do modelo de provisionamento. O modelo atual de provisionamento de passivo tributário contingente considera parâmetros calibrados para ICMS. Quais parâmetros precisam ser revisados para o IBS? Qual é o impacto no provisionamento agregado se a probabilidade de desfecho favorável for recalibrada para um tributo sem jurisprudência?
A terceira é a verificação de prontidão do SAP para gerar evidência de defesa. O sistema está configurado com rastreabilidade suficiente para suportar contestação no nível de transação que o Comitê Gestor do IBS vai exigir? Se não, o que precisa ser configurado antes de o período de teste gerar os primeiros dados que podem ser objeto de contestação?
Nenhuma dessas análises é complexa de executar quando o diagnóstico é feito com método. Todas se tornam caras quando o primeiro litígio com o Comitê Gestor chega antes de elas terem sido feitas.
Na DFS PRO, o diagnóstico de prontidão para o IBS em setores com histórico de contencioso mapeia as três dimensões: teses tributárias sob risco, modelo de provisionamento e prontidão do SAP para gerar evidência de defesa. Se faz sentido ter essa análise antes de o período de teste começar a criar histórico que vai ser contestado, estou disponível.
TAKEAWAYS
Histórico de contencioso tributário é ativo estratégico num regime com jurisprudência consolidada. No IBS, com Comitê Gestor como nova instância e jurisprudência inexistente, esse histórico vira premissa que precisa ser recalibrada. Empresa que chegar ao primeiro litígio de IBS usando o mesmo playbook do ICMS vai descobrir o gap em tempo real, sem margem de ajuste.
Artigo escrito por Emanuel Kaufman, Head of Business da DFS PRO. Especialista em operações fiscais críticas em SAP e Guepardo Tax. Curitiba, 2025. DFS PRO IT Solutions