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Reforma Tributária não é pauta de uma área só. E o maior risco não é tributário.

13 de maio de 2026 por
Emanuel Kaufman


Existe uma crença bastante comum nas empresas brasileiras: a Reforma Tributária é um problema do Fiscal.


Entendo de onde vem essa leitura. A CBS substitui o PIS e o COFINS. O IBS substitui o ICMS e o ISS. São mudanças tributárias. Logo, é tema do fiscal.

O problema é que essa leitura está errada. E caro vai custar às empresas que a mantiverem até 2027.

Deixa eu explicar.

A Reforma não altera apenas alíquotas. Ela reconfigura a lógica de cálculo, o destino da arrecadação, a estrutura dos documentos fiscais eletrônicos, o modelo de crédito tributário, o fluxo de caixa via Split Payment e a forma como o SAP processa cada transação comercial. Isso não é ajuste de tabela. É redesenho de operação.


E operação não pertence a uma área.


Quando o cálculo muda de "por dentro" para "por fora" e a nota fiscal passa a destacar CBS e IBS separadamente, quem precisa agir? O fiscal parametriza os grupos de imposto. O TI atualiza os módulos, aplica as SAP Notes e testa as integrações. A controladoria recalibra as projeções de margem porque o custo efetivo de compra muda. O jurídico revisa os contratos de longo prazo porque as cláusulas de repasse tributário viraram armadilha. As compras renegociam com fornecedores porque a lógica de crédito na cadeia mudou. O comercial reprecia porque a competitividade do produto depende de quem aproveitou crédito e quem não aproveitou. O CFO replanjea o capital de giro porque o Split Payment elimina o float financeiro que muitas empresas usam para girar operação. E a direção decide a prioridade.

Isso é nove áreas. Operando em paralelo. Sobre um prazo que já está correndo.

Fui conversar com equipes fiscais de empresas industriais que faturam acima de R$ 500 milhões. O padrão que encontrei é sempre o mesmo: o fiscal sabe o que precisa fazer. O TI ainda está priorizando outras demandas. A controladoria ainda não modelou os cenários. O jurídico ainda não revisou os contratos. E o CFO ainda não incluiu isso no plano de capital de giro.


Cada área individualmente está ciente do problema. Em conjunto, ninguém está coordenado.


Esse é o risco real da Reforma Tributária. Não a alíquota. A governança.

Agora adiciona um elemento que torna tudo mais crítico: o período de coexistência.

De 2026 a 2033, as empresas precisam operar dois sistemas tributários ao mesmo tempo. O atual, com PIS, COFINS, ICMS e ISS, e o novo, com CBS e IBS. No SAP, isso se traduz em um ambiente dual: o mesmo ERP precisa calcular e registrar os dois modelos sem inconsistências, sem rejeição de NF-e e sem erros de apuração que apareçam meses depois como passivo oculto.

Para empresas que ainda rodam SAP ECC, o cenário é ainda mais delicado. A SAP encerra o suporte padrão ao ECC em 2027. Isso significa que as empresas precisam, ao mesmo tempo, adaptar o ECC ao novo modelo fiscal e planejar a migração para S/4HANA dentro de um calendário que já não tem folga. Fazer as duas coisas sem coordenação entre Fiscal e TI é, na prática, acumular inconsistências que aparecem quando o ambiente está mais exigente, quando as alíquotas já são plenas e a fiscalização digital está ativa.

A SAP liberou as primeiras SAP Notes para adequação ao modelo CBS/IBS. Isso é bom. O problema é que nota técnica não implanta nota técnica. Alguém precisa entender o que ela altera no esquema de cálculo, mapear quais CFOPs e grupos de imposto são afetados, testar a emissão em ambiente de homologação antes de ir para produção e validar com o fiscal que o resultado está correto. Isso exige as duas áreas conversando. Não em reunião de alinhamento. Em execução conjunta.


Quem está fazendo essa ponte hoje, na sua empresa?


Esse é o diagnóstico que eu costumo fazer antes de qualquer proposta. Não para vender projeto. Para entender se a empresa tem governança suficiente para atravessar a transição sem acumular risco.

O que eu encontro com frequência são empresas que:

Têm o SAP desatualizado para o novo modelo porque TI ainda não priorizou as SAP Notes. Têm contratos de longo prazo com cláusulas de preço que não absorvem a mudança na base de cálculo. Têm equipe fiscal capacitada para as regras antigas, sem qualificação formal para o novo modelo. Têm o setor comercial precificando com a margem do sistema antigo, sem simular o novo. Têm o jurídico reativo, revisando contratos quando o conflito já está instaurado.

Cada um desses pontos isolado é gerenciável. Juntos, formam um vetor de risco que se materializa na forma de autuação, multa, perda de crédito ou simplesmente uma NF-e rejeitada em momento crítico de faturamento.

E o prazo para resolver isso não é 2033. A exigência operacional já está em vigor. Desde 30 de abril de 2026, foram publicadas a Resolução CGIBS nº 6/2026 e o Decreto nº 12.955/2026, que regulamentam o IBS e a CBS respectivamente, com exigência efetiva de destacar os novos tributos nos documentos fiscais a partir de agosto de 2026. O "ano de testes" tem obrigações reais.

Existe também um equívoco sobre o que significa "estar pronto." Muitas equipes acreditam que estar pronto é ter o SAP atualizado. Isso é condição mínima, não suficiência. Estar pronto é ter o SAP atualizado, os cadastros revistos, os esquemas de cálculo validados, os cenários de margem simulados, os contratos revisados e as equipes treinadas no que muda na rotina delas especificamente. Não em cem funcionalidades do novo sistema. No que elas vão usar todo dia.

O treinamento genérico de reforma tributária que cobre tudo de CBS a cashback em quatro horas não capacita equipe nenhuma para operar. Capacita para passar no teste. São coisas diferentes.

Tenho acompanhado esse processo em empresas com SAP ECC e S/4HANA, de grupos industriais a agronegócio, de manufatura pesada a celulose. O denominador comum das empresas que estão atravessando melhor essa transição não é ter começado mais cedo. É ter um coordenador de governança que faz a ponte entre Fiscal e TI. Alguém que sabe ler uma SAP Note e também entende o risco fiscal de não aplicá-la corretamente.

Na maioria das empresas, esse papel não tem dono formal. Fica no informal. E o informal, na operação fiscal crítica, é onde os problemas aparecem.

A imagem que utilizamos aqui para abrir esse artigo sintetiza bem o que estou descrevendo: CFO, Fiscal, TI, Controladoria, Contabilidade, Compras, Jurídico, Comercial e Direção. Todos conectados ao mesmo centro. Todos precisando agir. Sem coordenação entre eles, o centro não sustenta.


O maior erro que uma empresa pode cometer neste momento é tratar a Reforma Tributária como se fosse pauta de uma área só.


O segundo maior erro é achar que o tempo é suficiente.

Se você é Diretor Fiscal, CFO ou CIO de uma empresa com SAP, e ainda não mapeou formalmente quais áreas precisam agir, em qual sequência e com qual responsável, isso é o diagnóstico mais urgente que você pode fazer agora.

Não é diagnóstico para comprar solução. É diagnóstico para saber onde você realmente está.

Se quiser trocar ideia sobre como esse mapeamento funciona na prática, comenta aqui ou me manda mensagem diretamente. A conversa não custa nada. O risco de não ter essa conversa pode custar bastante.


Artigo escrito por Emanuel Kaufman, Head of Business da DFS PRO Especialista em operações fiscais críticas em SAP e Guepardo Tax - Curitiba, 2026 ( DFSpro IT Solutions )


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